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A reeleição de Dilma e os desafios para os movimentos sociais

A Física ensina que força é a interação de dois corpos. Na organização social é somando forças que as ações se intensificam. E ainda, conforme afirma Newton, "um corpo em movimento tende a permanecer em movimento". E é esse movimento que precisamos manter e alavancar, enfrentando juntos, de forma coesa, as prioridades que se nos apresentam após o processo eleitoral de 2014.

O resultado das urnas nos traz mensagens importantes. A primeira delas é que a confiança depositada na reeleição de Dilma tem seu nascedouro nos compromissos por ela assumidos, como o combate à corrupção e a punição dos responsáveis por irregularidades; a ampliação das conquistas sociais; o abono aos direitos de grupos sociais específicos; a garantia de crescimento econômico; preservação do padrão de consumo e; principalmente, melhoria da qualidade dos serviços públicos. Outro recado é que nossa luta não acabou; ao contrário, exige fortalecimento da mobilização para manter e ampliar nossas conquistas e a democracia legitimamente conquistada.

A presidenta Dilma, para governar o País nesse segundo mandato, terá que estabelecer ações para cumprir os objetivos aos quais se propôs. Para tanto serão necessários gestos em direção aos atores econômicos, políticos e sociais, atuar dinamicamente para o retorno dos investimentos, para a manutenção da geração de emprego e renda, estabelecer mecanismos para controlar a inflação. Terá, ainda, mediante propostas aglutinadoras e de interesse nacional, de estabelecer diálogo com as forças que lhe fizeram oposição.

Precisamos constituir instituições amplas, participativas, fortalecidas em objetivos e princípios para resistirmos aos ataques, agressões e mentiras e sustentar com razões e argumentos os avanços realizados nesses 12 anos dos Governos Lula e Dilma. Necessário e importante também se faz não perder de vista nosso papel principal: o de lutar organizadamente para proteger e avançar nos direitos conquistados.

Para contribuir com o debate, compartilho algumas reflexões realizadas durante e a partir do processo eleitoral.

1. Estabelecimento de diálogo

Embora se desenvolva a partir de pontos de vista diferentes, o verdadeiro diálogo supõe um clima de boa vontade e compreensão recíprocas. Esse conceito requer a inauguração de outras conversas, com todos dispostos a aprender a falar e ouvir. O desafio é ouvir o outro sem imediatamente rebatê-lo, julgando que nosso pensar é melhor. Precisamos escutar, inclusive com a alma. Precisamos aprender a misturar o que a outra pessoa fala com o que temos a dizer. Assim se constrói a dignidade e o respeito. Diálogo requer interação entre as pessoas.

2. Articulação no interior da CUT

No âmbito da Central Única dos Trabalhadores (CUT) devemos reunir imediatamente as Estaduais, ramos sindicais, confederações, federações e sindicatos. Precisamos escutar os representantes de cada instância, que tiveram papel importante nesse processo vitorioso, com batalhas homéricas em condições nem sempre igualitárias. É importante avaliarmos as vivências pessoal e coletiva, o olhar sobre o enfrentamento das campanhas para presidente e nos Estados, a mobilização da base de trabalhadoras e trabalhadores e as consequências deixadas. Construir um debate sobre reivindicações específicas, conquistas e necessidades de avanços é fundamental nesse momento.

3. Debate entre centrais sindicais

O diálogo entre entidades sindicais pede também a troca de ideias, experiências e proposições entre as centrais sindicais que tiveram importante papel na reeleição de Dilma: Além da CUT, Força Sindical, UGT, CTB, CSB e Nova Central, e no segundo turno a Intersindical fortaleceram de maneira significativa a campanha à reeleição de Dilma. É factível a construção de um plano de lutas conjunto, composto por uma pauta comum.

4. "Escutatória" dos movimentos sociais

A crônica "Escutatória" de Rubem Alves nos ensina o verdadeiro significado do diálogo, alertando para a necessidade de silêncios para ouvir o outro, pensar, compreender sua fala e somente então emitir nossa opinião. Nesse momento assumimos imprescindivelmente a tarefa de conversar a pauta política com os demais movimentos sociais, que exerceram com muita dignidade e competência seus papeis no processo eleitoral. Em suas diferentes formas, as organizações sociais foram fundamentais para vencermos o embate estabelecido na eleição presidencial. Muitas, mobilizadas a partir dos setoriais do PT e motivados pelas pautas específicas, articularam grandes ações, encheram as ruas, gritaram por seus direitos. As reivindicações sociais têm reflexos diretos no movimento sindical e na sua organização e são fundamentais para a interlocução ao aprofundamento da democracia e para a ampliação da presença da sociedade nas instâncias governamentais.

5. Sentimento de Nação

Precisamos desconstruir o discurso de nossos adversários políticos de que o País saiu dividido da eleição. Tivemos efetivamente o sentimento de nação, de unidade, especialmente na reta final da campanha. Tínhamos a firme convicção de que "meu voto não é para mim. Meu voto é para todos". O povo do Nordeste, do Norte, do Sudeste, do Sul, do Centro-Oeste se sentiu imbuído de um mesmo espírito de luta. Todos pela reafirmação da igualdade, da ampliação das políticas públicas, do respeito à diversidade e com a certeza de que o Brasil é uma nação única pela capacidade construída do olhar diferenciado para os desiguais, mantendo a equidade e a igualdade constitucional. Não podemos permitir qualquer processo de desintegração, movido pelo ódio, pela vingança, pela ignorância do desconhecimento regional e pela incapacidade avaliativa. Precisamos articular ações para fortalecer a sensibilidade concreta de unidade nacional.

6. Articulação com o Parlamento

O Congresso Nacional teve sua bancada conservadora fortalecida. Empresários, ruralistas, entre outros que ocuparão um cargo eletivo e são ligados à segurança somam 468 parlamentares. Os temas defendidos por essas bancadas não são nada progressistas. Dizem respeito à reforma dos direitos trabalhistas, à terceirização, demarcação de terras indígenas, regulamentação da Emenda Constitucional do Trabalho Escravo, meio ambiente, união homoafetiva, defesa da família, maioridade penal, fim de penas alternativas, estatutos do desarmamento e da criança e do adolescente. Apontam choques frontais que exigirão grande resistência para evitar ferimentos graves. Dentre eles a Política Nacional de Participação Social. O decreto 8.243/2014 que instituiu a PNPS foi derrubado pela Câmara dos Deputados. Essa derrota não pode nos abater. Ao contrário, deve servir de motivação para restabelecer a determinação presidencial. É a representatividade da sociedade que mede o nível de democracia do País.

7. Reforma Política

A pauta da reforma política foi fator de unidade no período eleitoral. Teve origem nas manifestações de junho/2014 e precisa ser potencializada. Há acordo entre sociedade, Executivo e Legislativo sobre a urgente necessidade de mudanças que tragam consistência ideológica e político-partidária. Todos clamam pelo combate à corrupção. Muitos sabem da necessidade de equidade nas disputas eleitorais. Porém, não há consenso sobre o modelo para efetivar a reforma política. Assim, nossa mobilização é fundamental para cobrar a implementação do Plebiscito. Não podemos permitir que a proposta da Constituinte Exclusiva caia no esquecimento ou seja sepultada pelo Congresso Nacional. Para tal somos impelidos a provocar o debate com o Executivo e com o Legislativo, fortalecendo nossa posição nessa disputa.

8. Política Econômica

Dentre os principais assuntos nos enfrentamentos da campanha, os temas ligados à área econômica se caracterizaram em divisor de águas entre as propostas dos candidatos. Os adversários de Dilma, com a intenção de captar os votos dos favorecidos pelas políticas sociais, se comprometiam com a manutenção destas. Porém, apresentavam propostas de mudança nos rumos da política econômica. Foi nesse assunto que a Presidenta demarcou de forma definitiva sua opção em relação ao modelo de desenvolvimento para o País. Combatendo de forma clara a independência do Banco Central, defendendo o importante papel exercido pelos bancos públicos e a política de crédito subsidiado, a manutenção do crescimento em caminho inverso ao do terrorismo econômico da proposta neoliberal de combate à inflação, reafirmou a continuidade da direção favorável aos direitos das trabalhadoras e dos trabalhadores e à geração de empregos. Mas os embates serão pesados e as primeiras sinalizações pós-eleições demostram que com a pressão do mercado financeiro, a agenda dos derrotados pode se impor ao governo. Precisamos definitivamente entrar no debate e construirmos propostas de nosso interesse.

9. Comunicação

Grande e poderoso desafio, a comunicação exige nossa especial atenção. Também nesta eleição a mídia tentou efetivar seus golpes. De fato o denuncismo e os factóides diminuíram a eficiência. Talvez pelos exageros das denúncias. Os rebates nas redes sociais também foram fundamentais. Mas precisamos ir além disso: atuarmos firmemente para a democratização das comunicações, implementando a necessária regulação da mídia. A correlação de forças nos espaços midiáticos é absurdamente desigual. O debate sobre comunicação no Brasil precisa ser assumido pelos setores progressistas para garantir o avanço político e democrático.

Além disso, precisamos fortalecer nossos próprios meios de comunicação, dando-lhes dinamismo e agilidade. A manifestação dos representantes dos movimentos sociais e sindicais, inclusive de forma escrita, emitindo e trocando opiniões, divulgando ideias e propostas dos movimentos organizados é muito importante. Essa é uma forma poderosa para estimular o debate e fortalecer o sentimento de pertencimento aos grupos organizados. E isso pode e deve ser feito por todos os instrumentos disponíveis para nossa comunicação.

10. Juventude

A mobilização no segundo turno foi surpreendente. A militância tomou nas mãos o rumo da campanha e foi para as ruas. Chamou atenção especial neste momento, a presença e a energia da juventude. Os jovens trouxeram seus questionamentos e anseios para os quais não temos apresentado respostas eficientes. Os atuais modelos de representação precisam ser reavaliados, incorporando a concretude de a juventude trazer efetivamente novos ares na vida política do País. Esse desafio exigirá, especialmente da  CUT, um esforço criativo na busca de novas propostas e de uma nova linguagem que dialogue com jovens trabalhadoras e trabalhadores.

Indiscutivelmente a reeleição de Dilma ajuda a consolidar a democracia no Brasil e na América do Sul. Por si só a recondução da atual presidenta não é garantia de avanços. Nosso papel é o de sermos guardiões dos interesses de trabalhadoras e trabalhadores, incluindo definitivamente em nossas pautas os interesses específicos das organizações sociais, considerando igualdade, justiça, luta contra preconceitos e o estabelecimento definitivo de uma sociedade que respeite direitos.

Precisamos explodir uma primavera de lutas com o intuito de defender nossas propostas, impedir o retrocesso social (como impedimos o retrocesso eleitoral) e avançar nas nossas conquistas. Para tanto é preciso mais de nós e para todas e todos nós. Chamemos, pois, os aliados de todas as horas, ampliemos nossos diálogos, abramos nossos corações e mentes para o entendimento com o Brasil real, com o País que nós construímos a cada dia e todos os dias.

Texto: Jacy Afonso, secretário nacional de Organização e Política Sindical da CUT